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Posso ser séria, brincalhona, distraída, chata, abusada, legal,ótima, travosa (como diz um grande amigo) isso depende de você, de mim, do dia ou da situação. Quer mesmo saber quem sou eu? Precisa de mais proximidade. Gosto de ler e escrever, embora nem sempre tenha tempo suficiente para tais práticas. Gosto de tanta coisa e de tantas pessoas que não caberiam aqui se a elas fosse me referir uma por uma. Acho a vida um belo espetáculo sem ensaios onde passeamos dia a dia a procura da felicidade. Para falar mais de mim profissionalmente: Sou professora. Graduada em Letras-FAFICA. Atualmente estudo sobre Leitura Literária no Ensino Fundamental. Atuo no Ensino Fundamental e no Ensino Médio.

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quarta-feira, 13 de março de 2013

Homofobia: como trabalhar o respeito e a diversidade sexual na escola

Homofobia: como trabalhar o respeito e a diversidade sexual na escola

Rosangela Nieto de Albuquerque

O debate contemporâneo sobre sexualidade egênero ultrapassou o reducionismo dicotomizante entre natureza versus cultura por meio da afirmação não apenas da arbitrariedade da dominação masculina, mas também da historicidade da compreensão binária do sexo. (Bourdieu, 2007)

Homossexualidade é um tema bastante complexo a ser abordado. Numa sociedade que não é apenas heterossexual, mas marcadamente heteronormativa (RIOS, 2007), a heterossexualidade é instituída como padrão e, naturalmente, apresenta-se como expressão identitária e sexual. Assim, para compreender as questões da homofobia, faz-se necessária uma reflexão aprofundada das várias dimensões da sexualidade humana.

Certamente, a família e a escola convivem com essa complexidade, que é, sem dúvida, um desafio. A abordagem do assunto nas escolas deixa alguns pais e educadores ansiosos e receosos. Entretanto, é importante entender que o respeito às diferenças deve estar presente no
currículo escolar, e estabelecer a tríade educacional pais-alunos-escola para informar e orientar é o primeiro passo para a quebra do preconceito.

Não há dúvidas de que o tema deve ser discutido de forma delicada e sensível, afinal a homossexualidade ainda é um tabu. Na escola ou em casa, as questões relacionadas à sexualidade devem ser abordadas vinculadas ao tema dos direitos e deveres dos cidadãos, do respeito e da diversidade humana.

As questões de sexualidade transcendem as relações sociais, os padrões de representação de gênero e de organizações familiares. Observa-se que, quando escola e família não conseguem trabalhar essas questões ou quando não “sabem” como abordá-las, geralmente optam pelo silêncio, e, assim, muitas lacunas se instalam e podem gerar a homofobia.

Podemos entender a homofobia como repulsa ou preconceito contra a homossexualidade e/ou o homossexual, isto é, uma espécie de medo irracional ao homossexual. É importante enfatizar que o comportamento homofóbico é tema de reflexão e discussão entre os pesquisadores e estudiosos do assunto. Para eles, a homofobia é uma forma de preconceito ao homossexual, que se instaura na condição de inferioridade, de anormalidade, baseada no domínio da lógica heteronormativa, ou seja, da heterossexualidade como padrão e norma.

Na verdade, a história do homem e as inúmeras denominações que foram usadas para identificar a homossexualidade legitimam o caráter preconceituoso de nossa sociedade. Assim, a homofobia costuma ser vista como um conjunto de emoções negativas (aversão, desprezo, ódio, desconfiança, desconforto ou medo) em relação a homossexuais. Desse modo, a homofobia vai além dos sentimentos individuais; trata-se de preconceito, violência contra as pessoas, discriminação, expressões de gênero e de identidades.

A determinação da verdade do sexo é uma construção histórica e, portanto, relativa, estando a serviço do estabelecimento de relações de poder sobre os corpos e da regulação dos prazeres e costumes (Foucault, 1982).

Através das representações sociais, observa-se que as práticas sexuais não reprodutivas são vistas como desvio, crime, aberração, doença, perversão, imoralidade ou pecado (FOUCAULT, 1987). As questões homofóbicas não se resumem somente aos indivíduos homossexuais, ou seja, a homofobia compreende também questões da esfera pública, como a luta por direitos. Muitos comportamentos homofóbicos surgem justamente do medo da equivalência de direitos entre homo e heterossexuais, uma vez que isso significa, de certa maneira, o desaparecimento da hierarquia sexual estabelecida.

Numa perspectiva psicológica, compreende-se a homofobia como projeção, isto é, um mecanismo de defesa do nosso eu, que se configura como uma proteção de algo que nos ameaça e que é constituído como algo externo. Portanto, o mal é sempre algo que está fora do sujeito e, ainda, diferente daqueles com os quais se identifica. Nessa perspectiva, há ainda a visão patológica da homossexualidade, que submete e acredita que os olhares clínicos, as terapias, são tentativas de “cura” (MOITA, 2003).

É importante ressaltar a complexidade do fenômeno da homofobia, que compreende duas dimensões fundamentais: a questão afetiva e as dimensões cultural e cognitiva, em que o objeto do preconceito (fenômeno) é a homossexualidade, e não o homossexual como indivíduo.

Em maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a legalidade da união estável entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. A questão da homofobia voltou à pauta de discussões acerca dos direitos dos homossexuais, que, apesar das conquistas, ainda enfrentam preconceitos. O reconhecimento legal da união homoafetiva não solucionou o problema da homofobia nem protegeu os homossexuais da violência.

A problematização da homofobia e o reconhecimento da diversidade sexual revelam-se indispensáveis para se viabilizar não só uma educação inclusiva e de qualidade, mas também a consolidação de um modelo democrático de sociedade (Miranda).

O aumento expressivo das discussões da temática sobre a diversidade sexual em diferentes contextos tem possibilitado ações afirmativas de combate à discriminação e à violência. A criação do programa Brasil sem Homofobia e do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, do Governo Federal, tem como objetivo a inclusão, o combate à discriminação e à violência e a promoção dos direitos humanos. As políticas públicas implantadas são pertinentes no cenário atual, que aponta os elevados índices de violência ao homossexual.

Homofobia é “a discriminação contra as pessoas que mostram, ou a quem se atribui, algumas qualidades (ou defeitos) atribuídos ao outro gênero” (WELZER-LANG).

A homofobia e as relações familiares

Em grande parte da sociedade, há a naturalização da família heterossexual e patriarcal, onde certamente a heteronormatividade está instalada. “É natural nas famílias, nas escolas e no contexto religioso uma legitimação da constituição familiar referendada pelo pai, pela mãe e pelos irmãos como elementos de uma família; os avós, primos e os tios também fazem parte da família” (Houaiss, 2005); “o pai, a mãe e os filhos” (Koggan & Houaiss, 1998). Porém, observa-se também os primeiros passos de mudança em alguns livros didáticos, com abertura para a discussão de diversas configurações familiares.

Em um livro de História para o Ensino Fundamental, as famílias estão representadas no seguinte paradigma: “[...] os que vivem e se organizam de diferentes formas [...]. Algumas crianças vivem só com a mãe, ou vivem com o avô, a avó e os irmãos, ou com tios, ou padrinhos, ou pais adotivos. Há crianças que vivem com a mãe, os irmãos, o padrasto e os filhos do padrasto”. Enfim, o livro aborda configurações familiares variadas, mas ainda se estabelece a abrangência da família heterossexual (avós, novos casamentos, separação entre os pais, ausência dos pais) (SÍMON & FONSECA, 2006).

Certamente, a educação para a cidadania é uma tarefa empreendida pelos pais e pela comunidade escolar, e a complexidade do fenômeno da homofobia, portanto, remete à necessidade de conscientização da sociedade como um todo para a mudança de postura, e, assim, para estabelecer uma sociedade democrática, com igualdade, liberdade, autonomia e respeito às diferenças.

Como lidar com a homofobia em casa?

É preciso muito diálogo e cuidado para não incentivar possíveis preconceitos. Nas ações diárias, nos diálogos familiares, jamais critique os homossexuais e, se perceber qualquer atitude de algum tipo de preconceito, converse com seu filho sobre o assunto. A homofobia, assim como o racismo e o antissemitismo, não pode ser tolerada. O melhor caminho é estabelecer o diálogo e orientar acerca da diversidade sexual.

A homofobia na escola: Como tratar do assunto?

A escola tem importante papel no processo de conscientização, orientação e instrumentalização do corpo da criança e da formação do sujeito. A instituição escolar, por tradição, ao classificar os sujeitos pela classe social, etnia e sexo, tem historicamente contribuído para (re)produzir e hierarquizar as diferenças. Assim, coloca à margem aqueles que não estão em conformidade com a norma hegemônica e, certamente, não contempla a inclusão da diversidade sexual proposta na atualidade.

Esse cenário abre uma reflexão acerca do papel da Educação no combate à homofobia, na efetivação das ações que são citadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) para a Orientação Sexual, que busca a promoção da construção de uma sociedade justa e equânime e que garanta os direitos humanos. Sendo, a escola, um espaço crucial na construção de sujeitos e subjetividades e estando sintonizada com a heteronormatividade, desempenha um papel central na produção e reprodução da homofobia. Nela, a homofobia é consentida e ensinada em rotinas normativas de silêncio e incapacidade de ação.

A escola reflete o panorama de desconhecimento dessas políticas, o que dificulta o reconhecimento da homofobia presente no cotidiano e ressalta o despreparo de educadores para lidar com o tema.

A homofobia na escola é um problema real. Seu enfrentamento requer estratégias específicas voltadas à garantia dos direitos sexuais, ao reconhecimento da diversidade sexual e à pluralidade das expressões de gênero. Nesse espaço, é preciso confrontar crenças e valores que alimentam os preconceitos e a hostilidade homofóbica.

Nas escolas, a homossexualidade é uma das principais causas de bullying. Sem ter referências sociais e culturais para debater a respeito da identidade de gênero e da orientação sexual, os jovens acabam se referindo com ironia e preconceito aos homossexuais.

Para evitar o constrangimento ou o bullying por parte dos estudantes, a família e a escola devem falar aos jovens sobre a necessidade de se respeitarem as diferenças e refletir a respeito da identidade de gênero e da orientação sexual. Embora não seja fácil, o assunto deve ser debatido na escola.

Recentemente, o Ministério da Educação propôs a distribuição de um kit anti-homofobia nas escolas, contendo vídeos e material de apoio aos professores. O material foi amplamente criticado, e a ideia agora é reformular a ação para que combata também o preconceito dessa ação pedagógica.

É fato que há uma lacuna na formação dos professores acerca do assunto, e, certamente, necessita-se investir em formação continuada e em políticas públicas para desenvolver a práxis educativa. Há diversos fatores que impedem a efetiva ação dos educadores:

• Qualificação deficitária.

• Sobrecarga de trabalho.

• Baixa remuneração.

• Silenciamento diante de situações de violência pelo sentimento de incapacidade para a ação.

• Inexistência de políticas públicas acerca do assunto.

Na verdade, a Educação é o espaço mais acessível para a promoção da cidadania. Assim, a escola, como espaço de Educação formal e como promotora do conhecimento, tem como desafio articular e executar as políticas públicas, discutir e repensar valores culturais e permitir a desconstrução de normas rigidamente estabelecidas.

A fim de garantir que esses princípios sejam alcançados, é preciso expandir a abrangência de ações inclusivas que possibilitem a expressão das diferenças de todas as ordens — étnicas, religiosas, de orientação afetivo-sexual, políticas, ideológicas, econômicas — e que levem o sujeito a compreendê-las como indispensáveis para sua existência plena, de direitos e de deveres, em sociedade.

O silêncio...

É enfático que o caráter heteronormativo das relações sociais está presente, e, nos discursos sobre afetos e diversidade sexual, a temática impõe um silêncio também evidenciado nas obras literárias, nos textos e nas ações.

O silêncio é a estratégia discursiva dominante, estabelecendo uma linha tênue entre heteronormatividade e homofobia.

Há várias expressões sociais da homofobia, desde atos violentos de agressão física e restrição de direitos sociais até a imposição da exclusão social às pessoas cujas práticas sexuais não são heterossexuais (MEYROU, 2005).

O silêncio sobre a diversidade sexual em vários livros didáticos assume o caráter da heterossexualidade como heteronormatividade. Geralmente, o assunto abordado nos livros vem associado à dimensão biológica e reprodutiva, isso denota o reducionismo da concepção de sexualidade nesses instrumentos pedagógicos, que desconsideram as implicações subjetivas, relacionais e sociais da vivência da sexualidade.

Formação docente: Como trabalhar o respeito e a diversidade sexual na escola?

Na escola, a homofobia perpassa também pelo padrão das relações sociais entre os atores escolares, alunos, professores e educadores técnicos. A homofobia na escola afeta o bem-estar subjetivo; dificulta o aprendizado; produz segregação e isolamento; gera insegurança e falta de autoconfiança; produz desinteresse; promove estigmatização; produz ou agrava a distorção idade-série; desencadeia tendências ao potencial discriminatório; afeta as expectativas de alunos e professores quanto ao “sucesso” e o rendimento escolar; favorece o abandono e a evasão escolar; produz intimidação; reduz oportunidades; prejudica o processo de inserção no mercado de trabalho; conduz à maior vulnerabilidade em relação a chantagens, assédios, abusos; tumultua o processo de configuração identitária e a construção do respeito em si; enseja invisibilidade ou visibilidade distorcida das pessoas; influencia a vida social em geral; dificulta a integração das famílias homoparentais na comunidade escolar.

Segundo pesquisa da Unesco (2004), cerca de 60% dos professores brasileiros consideram inadmissível uma pessoa ter relações homossexuais, e um alto percentual de docentes afirma não saber abordar o tema homossexualidade nas aulas. Entre os pais, 62% não desejariam que seus filhos tivessem colegas homossexuais. Entre os estudantes, muitos não gostariam de ter colegas homossexuais. E bater em homossexuais foi apontado como o exemplo menos grave de violência (ABRAMOVAY et al., 2004).

Na verdade, existe uma lacuna na formação docente em relação a técnicas didáticas e estratégias e à pedagogia inclusiva. Trabalhar o respeito e a diversidade sexual na escola e estabelecer algumas ações poderão diminuir a homofobia. Existem algumas ações que poderão ser vivenciadas que, certamente, diminuirão as possibilidades de homofobia na escola:

• Acolher e fortalecer os jovens que se isolam do grupo por ter comportamento diferente do padrão.

• Promover um debate franco sobre a necessidade de se respeitarem as diferentes orientações sexuais.

• Reprimir ou impedir os comentários preconceituosos entre os alunos.

• O professor deve dar opinião sobre o tema apenas no final das discussões.

• Apresentar aos alunos dados e pesquisas socioculturais sempre que possível.

• Propor atividades que favoreçam a participação dos mais tímidos.

• Manter a discussão genérica, sem se intrometer na intimidade da garotada.

• Fazer um “contrato” com a turma para garantir que tudo o que for discutido não seja usado em comentários maldosos nos corredores nem para julgar os colegas.

• Incentivar que os estudantes tirem as próprias conclusões.

• Convidar os pais, sempre que possível, a participar de um bate-papo sobre homofobia e diversidade sexual em sala de aula com os estudantes.

Há muito a fazer, as instituições sociais estão dando os primeiros passos acerca da homofobia. O importante é promover políticas públicas e ações inclusivas de orientação afetivo-sexual, com a integração da família, da escola e de instituições como um todo, que levem o sujeito à sua existência plena de direitos e deveres em sociedade.

Rosangela Nieto de Albuquerque é Mestre e doutoranda em Educação, Mestre em Ciências da Linguagem, psicopedagoga, pedagoga e professora universitária.
Referências
ABRAMOVAY, M. Juventudes e Sexualidade. Miriam Abramovay,
Mary Garcia Castro e Lorena Bernadete da Silva.
Brasília: Unesco Brasil, 2004.

BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. 5. ed.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. Do original La Domination
Masculine, 1998.

BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos
Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos
Humanos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos;
Ministério da Educação, 2003.

CASTRO, M. G. C., ABRAMOVAY, M. SILVA, L. B.
Juventudes e Sexualidade. Brasília: Unesco Brasil, 2004.

CONSELHO Nacional de Combate à Discriminação. Brasil sem homofobia: Programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e promoção da cidadania homossexual. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

LOURO, G. L. Teoria Queer: uma Perspectiva Pós-identitária para a Educação. Revista de Estudos Feministas, 2001.

LOURO, G. L. Gênero, Sexualidade e Educação: uma Perspectiva Pós-estruturalista. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.

MEYROU, BORRILLO. Homofobia e Mito de Andrógeno: uma Leitura Psicanalítica. In FERREIRA, A. A. GOMES, E. F. SANTOS, K. da S. OLIVEIRA, G. P. Pensamento Plural: Revista Científica do São João da Boa Vista, v. 5, n. 2, 2011.

MOITA, G. Essências e Diferenças: Minorias Sexuais ou Sexualidades (Im)Possíveis. In FONSECA SOARES, C.; VAZ, J. M.. A Sexologia: Perspectiva Multidisciplinar II. Coimbra: Quarteto, 2003.

MIRANDA, Tânia. Brasil sem Homofobia. Publicado no jornal A Tarde. Fórum Baiana LGBT.s/d.

RIOS, R R. Homofobia na Perspectiva dos Direitos Humanos e no Contexto dos Estudos sobre Preconceito e Discriminação. In: JUNQUEIRA, R. D. (Org.). Diversidade Sexual na Escola: Problematizações sobre a Homofobia nas Escolas. Brasília: Edições MEC/Unesco, 2009.

SIMON & FONSECA. Homofobia, Silêncio e Naturalização: por uma Narrativa da Diversidade Sexual. Rev. psicol. polít. vol. 8, n. 16, São Paulo. 2008. versão ISSN 1519-549X.

SMIGAY, K E V. Sexismo, Homofobia e Outras Expressões Correlatas de Violência: Desafios para a Psicologia Política. Belo Horizonte: Rev. Psicologia em Revista, v. 8, n. 11, pp. 32-46, 2001.

WELZER-LANG, D. A Construção do Masculino: Dominação das Mulheres e Homofobia. Rev.Estud. Fem. vol. 9, n. 2, Florianópolis: 2001.

Homofobia: um problema complexo de se resolver


Homofobia: um problema complexo de se resolver
Mariana Branco

Estudos revelam despreparo de gestores ao enfrentarem a
discriminação contra homossexuais no ambiente escolar

Em uma escola pública de Uberlândia (MG), um professor homossexual era frequentemente agredido pelos alunos, que o chamavam de boiola e de bicha. A direção não tomou providências, provavelmente por medo de revides, uma vez que a instituição localizava-se num bairro com alto índice de criminalidade. O relato, que faz parte do estudo Docências que Transitam pelas Fronteiras das Sexualidades e do Gênero: a Escola como Espaço de Imposição de Poderes e Resistências, do educador Neil Franco Pereira de Almeida, evidencia a discriminação contra homossexuais nas escolas brasileiras. Embora muitos gestores ainda prefiram não discutir o assunto ou até negar a sua existência, a homofobia faz vítimas, seja os professores, que acabam saindo da escola, seja os estudantes homossexuais, que terminam entrando para as estatísticas de evasão escolar.

O estudo de Almeida analisa relatos de professores e professoras gays, travestis e lésbicas, e suas análises são parte de uma pesquisa de mestrado em Educação realizada nos anos de 2007 e 2008. Na visão do docente, a homofobia está relacionada à construção social que diz que a sociedade é construída por dois gêneros — masculino ou feminino — e que uma dessas duas identidades, que seria a masculina, tem um valor social superior à outra. “O estereótipo gay estaria transitando para o gênero feminino e desobedecendo a regra de que o masculino é a
identidade máxima. A homofobia vai denunciar o sexismo que existe socialmente e que envolve professores, professoras, alunos e alunas”, explica Almeida, que também é professor do curso de Educação Física da Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac), de Minas Gerais.

O educador ainda destaca as consequências do preconceito, como a baixa autoestima de docentes homossexuais. “Às vezes, ele [o professor homossexual] pode se sentir na obrigação de alimentar essa homofobia dentro da escola, achando que talvez não tenha o valor social que lhe é devido, que deveria ter. Lá no fundo, ele pode acreditar que a desvalorização da homossexualidade é uma coisa legítima, legal. Na minha pesquisa, percebi que eles têm um pouco de dificuldade de administrar isso”, analisa.

É aí que entra o papel do gestor escolar no combate à homofobia. Mas, para especialistas no assunto, o que mais se vê são profissionais despreparados diante de situações discriminatórias, e, não sabendo lidar com a situação, muitos preferem ignorá-la. “O discurso da diversidade é muito frágil, fica muito no papel. Na hora de botar em prática mesmo, é outra história, porque na verdade o discurso é uma coisa, mas a prática é outra”, afirma o professor.

Para o deputado estadual José Rodrigues Lemos (PT-PR), o Professor Lemos, a escola brasileira, situada em uma sociedade que é preconceituosa, reproduz essa realidade. “Diante de pesquisas, observamos que é grande o número de estudantes que rejeitam a presença de colegas homossexuais. Dados mostram que há uma exclusão nas escolas dos alunos que não são heterossexuais, e a maioria acaba abandonando a escola”, afirma, lembrando que o Brasil já foi considerado o país mais homofóbico do mundo. Ele se refere ao Relatório Anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), que lista desde 1980 os assassinatos de homossexuais no País — em 2008, o Brasil registrou o maior número de crimes do gênero (190 casos), seguido pelo México (35) e pelos Estados Unidos (25).

Segundo o deputado, quando acontece uma situação de discriminação, é importante que os docentes estejam preparados para atender a uma demanda como essa. “Mas, evidentemente, eles precisam contar com uma equipe pedagógica preparada, com a direção e com o Conselho Escolar, que, na área pública, é o órgão de maior deliberação da escola.” Lemos propõe a sensibilização de gestores de escolas públicas e privadas para a promoção de um debate sobre o assunto e a inclusão desses conteúdos no interior das escolas. “Se avançarmos com os gestores, nós vamos mais rapidamente combater a homofobia nas instituições de ensino. Estamos propondo abrir esse debate levando toda a comunidade escolar a refletir”, afirma. No final do ano passado, ele promoveu, na Assembleia Legislativa do Paraná, a audiência pública sob o tema Escola sem Homofobia: Toda Discriminação Deve Ser Reprovada!. Uma das propostas aprovadas na audiência pública pelas entidades presentes — instituições integrantes do Fórum Paranaense de Gênero e Diversidade Sexual, como a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Dom da Terra, o Grupo de Gênero da Universidade Tecnológica do Paraná (UTFPR) e o Grupo Dignidade — foi a criação de um projeto de lei que tornaria obrigatória a inserção de conteúdos curriculares sobre as relações entre os gêneros e a diversidade sexual nos estabelecimentos de ensino do Estado, medida que seria aplicada em instituições públicas e privadas, da Educação Básica ao Ensino Superior.

Almeida lembra em seu estudo que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), do Ministério da Educação (MEC), apresentam a orientação sexual como um de seus temas transversais, ou seja, os conteúdos relacionados à temática da sexualidade devem atravessar e ser contemplados por todas as séries e por todas as áreas do conhecimento. Mas ele acrescenta: “São dez anos de uma proposta que pouco se conseguiu instituir como forma de desenvolver esse conhecimento”.

Formação

Se o projeto de lei do Paraná fosse aprovado e colocado em prática, poderia ser um caminho para preparar futuros docentes e gestores do Estado. “A escola não está só para ensinar Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia; ela está para contribuir para a construção de uma sociedade justa. Então, a gente não pode permitir que discriminações sejam feitas, percebidas, e a escola não tome providências”, analisa o deputado.

O professor de História e coordenador pedagógico de Ensino Fundamental (séries finais) do Colégio de Aplicação João XXIII, de Juiz de Fora (MG), Anderson Ferrari, alerta para a necessidade de os educadores também estarem preparados para situações de homofobia. “A escola não quer discutir conscientemente e tem dificuldade efetiva de discutir, por várias questões. Uma delas se refere às nossas formações, sobretudo às licenciaturas, que são extremamente conteudistas. As pessoas entram na graduação e vão ser professores achando que sala de aula é só conteúdo”, opina Ferrari, que também é professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (mestrado/doutorado) na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Para ele, a sala de aula exige uma série de outras coisas e, dentre elas, as construções das identidades. “O que o professor não sabe é exatamente trabalhar essas questões.”

Ferrari acrescenta que alguns professores não tomam nenhuma atitude ao presenciar a discriminação porque, muitas vezes, não sabem como agir. “Se lida mal com isso fora da escola, ele vai lidar da mesma forma na instituição. A graduação não foi capaz de mudar essa postura dele, porque não discutiu isso. Basta a gente pensar: qual faculdade discute sexualidade? Você não tem na História, por exemplo, a história da sexualidade. Você não tem nenhum momento em que se discute a sexualidade, muito menos a homossexualidade”, alerta.

Recomendações

Os especialistas sugerem que o gestor aborde a diversidade sexual e o respeito à orientação sexual não apenas com o corpo docente, mas com todos os colaboradores da instituição de ensino. “Esses funcionários recebem o aluno no portão, fazem a merenda, estão na biblioteca, na secretaria e andando pelo pátio. E os estudantes têm confiança e conversam muito com eles. Então, esses profissionais precisam estar incluídos no debate”, analisa Lemos.

Outra orientação é que as instituições de ensino estabeleçam regras claras para evitar confusões. Ferrari relembra uma situação em que um aluno queria ir para a escola com a camisa do arco-íris durante a semana de comemoração do Rainbow Fest — evento organizado pelo Movimento Gay de Minas (MGM). Quando isso foi negado a ele, o estudante achou que a escola estava agindo de forma discriminatória. “Isso é uma regra da escola que cabe a todo mundo. A fronteira é muito tênue. Não quer dizer que não haja homofobia; ela existe de fato e muitas vezes é sutil.”

Religião

Um professor entrevistado por Almeida (para o estudo citado no início deste artigo) apontou a religiosidade como uma das principais barreiras na construção de um trabalho representativo que discuta a homossexualidade nas escolas. E essa questão afeta não apenas as instituições brasileiras. Nos Estados Unidos, por exemplo, a aprovação em maio de 2009 de um currículo que visava evitar a homofobia em escolas de Alameda, na Califórnia, está provocando muita polêmica. A Lição 9, como é chamada, gerou um processo judicial, acusações de que famílias religiosas estão sendo discriminadas e ameaça de afastamento dos três membros do Conselho Educacional da cidade que aprovaram a medida. Ela se resume ao ensino sobre o tema uma vez ao ano, durante 45 minutos, para todas as séries a partir da Educação Infantil. Lá, existe uma tensão entre pais gays, que querem ter seus filhos protegidos contra possíveis discriminações, e pais que acreditam que é muito cedo abordar homossexualidade com alunos de Ensino Fundamental.

Para Rogério Diniz Junqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a principal consequência de as escolas não implementarem políticas de enfrentamento à violência e ao preconceito motivado por orientação sexual e identidade de gênero é a construção de um ambiente escolar menos pedagógico e seguro. “As pesquisas do Inep mostram que, quanto mais preconceituoso é o ambiente escolar, menor é o rendimento escolar de todos os estudantes; a média cai” (veja dados a seguir).

Preconceito nas escolas

Uma recente pesquisa nacional, resultado de uma parceria entre o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), analisou ações discriminatórias em 501 escolas. Participaram 501 diretores, 1.005 professores, 1.004 funcionários, 15.087 alunos e 1.002 pais/mães de alunos. Veja alguns resultados:

• 99,3% afirmaram possuir algum nível de preconceito, sendo que 87,3% indicaram o preconceito em relação à orientação sexual.

• 98,5% apresentaram predisposição a manter algum grau de distância em relação aos homossexuais.

• O índice de conhecimento de situações discriminatórias pelo fato de o aluno ser homossexual foi de 17,4% e pelo fato de o professor ser homossexual foi de 8,1%.

• Escolas em que se observaram atitudes mais preconceituosas entre os alunos apresentaram avaliações mais baixas na Prova Brasil 2007 (em Matemática e Português).

Estados de negação

Enquanto trabalhava na implementação do Programa Brasil Sem Homofobia, do Governo Federal, Rogério Diniz Junqueira, hoje pesquisador do Inep, ouvia discursos de agentes públicos e dirigentes escolares que deixavam transparecer um estado de negação em relação à homofobia e à diversidade sexual. Em um estudo, ele agrupou e problematizou argumentos colhidos entre 2005 e 2008:

• Negação literal: nega-se de forma direta e categórica. Exemplos: “A homofobia não é um problema” ou “As coisas não são assim. Nessa escola, não temos gays nem lésbicas”.

• Negação implícita: são negadas as suas implicações psicológicas, físicas, morais e políticas, e, em geral, o interlocutor utiliza justificativas evasivas. Não raro, essa negação se dá por meio de afirmações que parecem justificáveis: “Por que eu deveria me arriscar? Em outros países é pior do que aqui”.

• Negação interpretativa: mais do que refutar diretamente o fenômeno, procura-se atribuir a ele um significado ou um contorno diverso: “Será que é assim mesmo? Afinal, faltam dados, indicadores que comprovem que essa violência seja fruto da homofobia”.

• Hierarquização: aqui, a homofobia não é simplesmente negada, mas denegada por meio do estabelecimento de níveis de prioridade que nos obrigariam a adiar o seu enfrentamento: “Devemos primeiro enfrentar o analfabetismo”.

• Diversionismo: o interlocutor, ao admitir a homofobia, exibe aqui maior preocupação em introduzir novos problemas, apresentar argumentos fantasiosos e discutir aspectos nitidamente escapistas ou pouco relevantes: “Isso é muito complexo. A escola não está preparada” ou “Isso é coisa para o pessoal da saúde”.

• Apelo ao senso de oportunidade: “Ainda é cedo” ou “Não há clima neste momento”.

• Antecipação fatalista: ressaltam-se dimensões negativas das ações de reconhecimento da diversidade e de crítica da homofobia. “Não vai adiantar”, “Nossa contribuição não fará nenhuma diferença” ou “Sempre foi assim e continuará sendo em todo o mundo”.

Fonte: Estudo Não Temos que Lidar com Isso. Aqui Não Há Gays nem Lésbicas! Estados de Negação da Homofobia nas Escolas.

Mariana Branco é jornalista.
Endereço eletrônico:
mariana@humanaeditorial.com.br
Revista Gestão Educacional. Ano 05. nº 57. Curitiba:
Humana Editorial, fevereiro de 2010.

“Professores devem reaprender a aprender”


“Professores devem reaprender a aprender”
O professor americano Will Richardson percebeu, em sua rotina de sala de aula, que havia alguma coisa mudando naquele espaço de aprendizagem. O ano era 2001 e ele dava aula de inglês para o ensino médio em escolas norte-americanas. Nessa década que se passou, as tecnologias foram entrando no universo educacional, ele começou a escrever sobre o assunto e, entre idas e vindas de conversas com professores pelo país, sua suspeita só se confirmou: essa aflição não era só sua. Foi aí que percebeu que o primeiro passo para os professores se adequarem aos novos formatos de educação era fazer com que eles reaprendessem a aprender e, para isso, era fundamental que eles se organizassem em redes.
“Esse é um dos desafios mais interessantes que temos hoje: como é que ajudamos os professores a entender o que está acontecendo fora das escolas e os deixamos aptos para preparar as crianças para essa realidade?”, pergunta o especialista, que já tem uma dica de qual seja a resposta. “Os professores têm que construir suas próprias redes e se tornar responsáveis pelo seu aprendizado, assim como se espera que os alunos façam”, afirma Richardson, que há seis anos vêm capacitando professores por meio do programa Powerful Learning Practice.
crédito Andrea Danti / Fotolia.com

Na capacitação que dá para os professores, Richardson reúne professores em comunidades virtuais e em algumas atividades presenciais ao longo do ano letivo. Ele procura fazer desse ambiente virtual um espaço compreensivo em que os professores possam compartilhar experiências, ansiedades e expectativas e, de quebra, se apropriar das funcionalidades da internet. “Tentamos fazer com que os professores se sintam confortáveis com o ambiente on-line, dividam seus medos, sejam transparentes, conversem. Mas leva tempo”, afirma o especialista, que procura usar o canal que criou para mostrar exemplos do que é possível fazer e falar sobre a educação do século 21. O programa, diz ele, tem sido procurado por escolas públicas e particulares, que inscrevem parte do seu corpo docente para participar da capacitação. As atividades são compartilhadas em um blog e parte das discussões que esses educadores promovem podem ser acessadas pelo site.
Preparar os professores para uma nova realidade de educação, em que há muito mais conhecimento disponível na palma da mão em um smartphone do que nas bibliotecas de muitas escolas, é apenas parte da solução. Richardson diz que a própria escola precisa mudar radicalmente. Tanto defende que lançou, no mês passado, o livro Why School?, (Por que Escola?, em livre tradução), cuja versão digital em inglês está disponível na Amazon por US$ 2,99. “Não é que não queiramos a escola. Não queremos essa escola. Tudo precisa ser repensado: currículo, design, infraestrutura”, diz ele.
“Não acho que possamos fazer como fazemos hoje, quando os alunos ficam trancados 45 minutos em uma sala, depois têm outra aula de 45 minutos. Temos que dar uma bagunçada nisso.”
O argumento de Richardson é que entregar o conhecimento pronto, encaixotado, hoje não faz mais sentido. O que se espera é que o currículo seja reflexivo, baseado muito mais em perguntas que não necessariamente se sabe a resposta – “porque é isso que elas vão encontrar na vida”. “As crianças demandam diferentes tipos de aprendizado, diferentes tipo de alfabetizações”, diz o educador, que ressalta a importância de que os alunos recebam uma espécie de alfabetização em rede (livre tradução para network literacy), em que aprendam segurança na web, como e onde pesquisar, o que se pode ou não fazer em ambiente virtual.
Quanto à estrutura das escolas, Richardson diz que o ideal é que os espaços fossem redesenhados porque sala de aula, quadro negro e carteira já não fazem mais sentido. “É preciso ter muito mais espaços colaborativos de trabalho, acesso a materiais multimídia. Não acho que possamos fazer como fazemos hoje, quando os alunos ficam trancados 45 minutos em uma sala, depois têm outra aula de 45 minutos. Temos que dar uma bagunçada nisso.”.
FONTE: http://porvir.org/porpensar/professores-devem-reaprender-aprender/20121009

sexta-feira, 1 de março de 2013

HOJE DESAPRENDO O QUE TINHA APRENDIDO ATÉ HOJE (CECÍLIA MEIRELES)

HOJE DESAPRENDO O QUE TINHA APRENDIDO ATÉ HOJE
(CECÍLIA MEIRELES)


Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.
Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos de riso e pedras.
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,
minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano
permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.

Meireles, Cecília,1901-1964

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

À DERIVA - CONCEIÇÃO GOMES

À DERIVA
CONCEIÇÃO GOMES

Estou à deriva
Não sinto, não quero.
Vejo folhas cinzentas
Caírem de árvores infrutíferas.
Meu coração parou
E tudo que vejo
É sem cor, sem brilho.

As ruas possuem todas
O mesmo cheiro.
Não me comovem
A aurora
Nem o crepúsculo.

Nada faz sentido
Entre partir ou ficar
Parece não haver diferença.
Estou à deriva,
Cercada de morbidez.

PALAVRAS GUARDADAS - Conceição Gomes



PALAVRAS GUARDADAS
(Conceição Gomes – 2013)


Guardei-lhe em palavras.
Promessas tantas
Entre você e eu
E um oceano de tempo
A nos separar.

Guardei-lhe em minhas palavras.
Tanto por ser escrito
E uma pausa na composição,
Nas notas que se emaranharam
Em tantas partituras livres.

Guardei-me em suas palavras.
Diariamente um novo vocabulário,
Tantas outras surgindo
E nos compondo,
Afirmando-nos.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Menos da metade dos professores de escolas públicas lê no tempo livre


Menos da metade dos professores de escolas públicas lê no tempo livre

Publicado em 05.02.2013, às 09h30


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Dos 225.348 professores que responderam à questão, 76.667 (34%) leem nunca ou quase nunca
Foto: Internet

Um cabo de vassoura que era capaz de falar e sentir era o protagonista do primeiro livro lido pela então adolescente Denise Pazito. Hoje, professora e pedagoga no Espírito Santo, ela fala da experiência em seu blog. "O livro foi indicado pela escola. Provavelmente, eu estava no 4° ou 5° ano. Ele se chamava Memórias de um Cabo de Vassoura e o seu autor era Orígenes Lessa. Professora inspirada a minha. Acertou na mosca. Uma história encantadora. Me encantou pelo mundo das letras."

Mas assim como são capazes de encantar, os professores têm em suas mãos o poder de desencantar, não por intenção, às vezes por desconhecimento. Uma pesquisa feita pelo QEdu: Aprendizado em Foco, uma parceria entre a Meritt e a Fundação Lemann., organização sem fins lucrativos voltada para educação, mostra que menos da metade dos professores das escolas públicas brasileiras tem o hábito de ler no tempo livre.

Baseado nas respostas dadas aos questionários socioeconômicos da Prova Brasil 2011, aplicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e divulgados em agosto do ano passado, o levantamento do QEdu mostra que dos 225.348 professores que responderam à questão, 101.933 (45%) leem sempre ou quase sempre, 46.748 (21%) o fazem eventualmente e 76.667 (34%), nunca ou quase nunca.

No caso de Denise, a leitura levou essa prática para as salas de aula, no entanto, muitos brasileiros terminam o ensino básico sem ler um livro inteiro. Para além da falta do hábito de leitura, a questão pode estar ligada a infraestrutura.

"O número de professores que não leem é chocante, mas isso pode estar ligado ao acesso. É preciso lembrar que faltam bibliotecas e que um livro é caro. Um professor de educação básica ganha em média 40% menos que um profissional de ensino superior. Acho que faltam políticas de incentivo. Não acredito que seja apenas desinteresse", diz a diretora executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz.

Um levantamento divulgado em janeiro pelo movimento mostra que o Brasil precisa construir 128 mil bibliotecas escolares em sete anos para cumprir uma lei federal que vigora desde 2010. Segundo a pesquisa, faltam 128 mil bibliotecas no país. Para sanar esse déficit até 2020, deveriam ser erguidos 39 espaços por dia, em unidades de ensino públicas e particulares. Atualmente, a deficiência é maior nas escolas públicas (113.269), o que obrigaria a construção de 34 unidades por dia até 2020.

Para Priscila, uma possível solução seriam os livros digitais. O Programa Nacional de Formação Continuada em Tecnologia Educacional (ProInfo Integrado) do Ministério da Educação distribui equipamentos tecnológicos nas escolas e oferece conteúdos e recursos multimídia.

Além disso, o governo facilita o acesso aos conteúdos por meio da distribuição de tablets, tanto para professores quanto para estudantes. No ano passado, o MEC transferiu R$ 117 milhões para 24 estados e o Distrito Federal para a compra de 382.317 tablets, destinados inicialmente a professores do ensino médio.

Sobre o acesso digital, os dados do levantamento do QEdu mostram que 68% dos professores (148.910) que responderam à pergunta usam computador em sala de aula. O estado com a maior porcentagem é Mato Grosso do Sul: 95% dos professores disseram que usam o equipamento. O Maranhão é o estado com a menor porcentagem (50,5%) de professores fazem o uso do computador. É lá também onde se constatou a maior porcentagem de escolas onde não há computadores: 38,3%. Estão no Sudeste, no entanto, as maiores porcentagens dos professores que acreditam não ser necessário o uso de computador nas salas: Minas Gerais (16%), Rio de Janeiro (15,4%) e São Paulo (15%).

O responsável pelo estudo, o coordenador de Projetos da Fundação Lemann, Ernesto Martins, diz que o país vive uma época de inovações no ensino e de incorporação dos meio digitais, como disse recentemente em palestra no Brasil o professor norte-americano Salman Khan, que usa o meio digital para promover acesso ao ensino. "Existem muitos desafios no país ligados a problemas de infraestrutura. Não apenas de acesso às máquinas, mas de acesso à internet, à qualidade dos sinais", disse.

Ao recepcionar o professor norte-americano, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ressaltou a importância dos meios digitais: “O conteúdo ao qual o filho dos mais ricos tem acesso pode ser dado aos menos servidos de educação. Queremos tornar a educação não algo escasso, mas um direito humano que todas as pessoas possam ter”, disse.

Fonte: Agência Brasil