Quem sou eu

Minha foto
Santa Cruz do Capibaribe/ Caruaru, NE/PE, Brazil
Posso ser séria, brincalhona, distraída, chata, abusada, legal,ótima, travosa (como diz um grande amigo) isso depende de você, de mim, do dia ou da situação. Quer mesmo saber quem sou eu? Precisa de mais proximidade. Gosto de ler e escrever, embora nem sempre tenha tempo suficiente para tais práticas. Gosto de tanta coisa e de tantas pessoas que não caberiam aqui se a elas fosse me referir uma por uma. Acho a vida um belo espetáculo sem ensaios onde passeamos dia a dia a procura da felicidade. Para falar mais de mim profissionalmente: Sou professora. Graduada em Letras-FAFICA. Atualmente estudo sobre Leitura Literária no Ensino Fundamental. Atuo no Ensino Fundamental e no Ensino Médio.

SEGUIDORES

domingo, 22 de julho de 2012

Qual é o real valor das coisas? - Luciano Pires



19/07/2012 - Uma vez fui dar uma palestra numa grande fábrica em uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul. Conversei com um diretor da empresa que me disse que o auditório da fábrica era o melhor – talvez único – da cidade e que eles se orgulhavam disso, mas que quando decidiram construí-lo foi uma dureza convencer outros diretores de que era algo necessário. O “valor” que para aquele diretor era o significado do auditório como um ponto de distribuição de conhecimento, integração e celebração, para os outros diretores era inexistente. Auditórios em fábricas não dão lucro, só despesas. E por isso não devem ser construídos...

Em minha palestra "A fórmula da inovação", discuto essa questão da percepção de valor. Percepção é coisa íntima, cada um tem a sua, não dá para emprestar, vender, comprar ou medir. E “valor” é relativo. Quer ver?

Entre os textos que circulam na Internet existem pérolas, como esta que recebi anos atrás:

“Um homem de idade já bem avançada veio à Clínica onde trabalho para fazer um curativo na mão ferida. Estava apressado, dizendo-se atrasado para um compromisso e enquanto o tratava perguntei-lhe sobre qual o motivo da pressa. Ele me disse que precisava ir a um asilo de anciãos para, como sempre, tomar o café da manhã com sua mulher que estava internada lá. Disse-me que ela já estava há algum tempo nesse lugar porque tinha o mal de Alzheimer num estágio bastante avançado. Enquanto acabava de fazer o curativo, perguntei-lhe se ela não se alarmaria pelo fato de ele estar chegando mais tarde.

- Não, ele disse. Ela já não sabe quem eu sou. Faz quase cinco anos que não me reconhece.

Estranhando, perguntei: - Mas se ela já não sabe quem o senhor é, porque essa necessidade de estar com ela todas as manhãs?

Ele sorriu e dando-me uma palmadinha na mão, disse: - É. Ela não sabe quem eu sou, mas eu sei muito bem quem ela é.”

O valor que para o médico era o reconhecimento do esforço, para o marido era a satisfação de retribuir um amor.

Mais uma história: no início dos anos de 1920, George Mallory, o então mais famoso alpinista inglês, preparava-se para escalar o monte Everest. Um jornalista curioso perguntou-lhe “por quê?”. E Mallory deu a resposta definitiva:

- Porque ele está lá.

O valor que para o jornalista era a fama e a fortuna obtidas com a conquista do Everest, para Mallory era a simplesmente a satisfação de chegar lá.

As histórias do auditório na fábrica, do velhinho no consultório e de George Mallory no Everest, mostram como é difícil entender e aceitar atitudes que aparentemente não buscam resultados tangíveis, mensuráveis. A vida toda somos treinados para trocar coisas: dou meu esforço e em troca recebo algo que posso contar, pendurar na parede, pesar, guardar no cofre ou no banco. Quando esse algo é “apenas” a realização de um sonho, a retribuição de um amor ou outro benefício intangível, ficamos espantados, quase que sem saber como reagir e perguntando: mas só isso? Essas “coisas” não têm valor...

Pois é. Acreditar que é possível expressar a complexidade de nossas vidas apenas em valores tangíveis explica muito do que se vê de feio por aí.

Luciano Pires
Palestrante e escritor, Luciano Pires é editor do site Café Brasil e passa a publicar seus artigos agora também no Cultura News. Visite-o: www.portalcafebrasil.com.br

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dentro do compasso


Escrito por Carlos Eduardo Amaral   

Foto por Ricardo Moura
Publicada em 18 de agosto de 2008, a Lei n° 11.769/08 estabeleceu que os sistemas de ensino teriam três anos letivos para se adaptarem às exigências da reintegração da música ao currículo escolar, no qual se deveria incorporar aos componentes curriculares de outras artes, tais quais dança, fotografia, artes visuais e teatro. O terceiro ano letivo mencionado no dispositivo legal, 2011, expirou e o ensino musical nas escolas, além de não ter sido plenamente efetivado, encontra obstáculos práticos para a sua expansão, embora venha solucionando os questionamentos iniciais com que se deparou.

Segundo o levantamento feito pelo projeto A música na escola, estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e São Paulo adequaram-se à lei, ao passo que Roraima e Rondônia, por exemplo, não se manifestaram a respeito. Essa mesma desigualdade de resultados pode ser verificada dentro de cada estado, posto que as redes municipais de ensino e as escolas particulares seguem sua própria dinâmica pedagógica.

A fim de fazer uma comparação entre essas dinâmicas, a Continente visitou três instituições na Região Metropolitana do Recife: a Escola Municipal Antônio Januário, em Jaboatão dos Guararapes, cidade que implantou o ensino musical em 2011; o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco, de responsabilidade federal; e o Instituto Capibaribe, colégio particular situado no Recife. O Instituto Capibaribe e o Colégio de Aplicação incluem música no currículo há algumas décadas e foram consultados em função da experiência com a disciplina.

Leia a matéria na íntegra na edição 139 da Revista Continente.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

CINEMA - Retração e preconceito


Escrito por Ingrid Melo   


O diretor éBruno Barreto, um dos mais consagrados do país, cujo currículo inclui produções comoDona Flor e seus dois maridos(1976) e O que é isso, companheiro? (1997). No elenco, além da brasileira Glória Pires, está a atriz australiana Miranda Otto, famosa por viver a personagem Éowyn de Rohan, na trilogia O senhor dos anéis (Peter Jackson). O roteiro, baseado no livro de sucesso Flores raras e banalíssimas (Carmem Lúcia Oliveira), conta a história de duas mulheres de personalidades fortes: Lota de Macedo Soares, urbanista carioca, e Elizabeth Bishop, poeta norte-americana ganhadora do Pulitzer.

Apesar de tantos predicados a seu favor, o longa-metragem Flores raras amarga a falta de patrocínio privado. “Não conseguimos um tostão de nenhuma empresa, fora as estatais. Por exemplo, a personagem da Lota terá um carro que aparecerá bastante. Várias montadoras foram procuradas para um product placement (espécie de promoção de vendas). Nenhuma topou”, disse Barreto à coluna de Mônica Bérgamo, no jornal Folha de S.Paulo. Esse é o primeiro filme da LC Barreto que não consegue captar todos os recursos previstos, em 50 anos de existência. Para que as filmagens não parassem, foi preciso que Lucy Barreto, mãe de Bruno e responsável pela produtora, vendesse ações de um banco.

O motivo da rejeição é o fato de a história do longa girar em torno do romance entre Lota e Elizabeth, que durou 14 anos e culminou com o suicídio da urbanista, em 1967, após a separação das duas. Apesar de Bruno Barreto ressaltar que a relação será retratada de forma sutil no longa-metragem e que seu objetivo é contar como o sentimento de perda reflete de maneira distinta na vida de cada uma dessas mulheres (o título inicial do filme seria A arte de perder, homônimo de um dos poemas mais famosos de Bishop), o empresariado teme que seu nome seja associado à temática gay.

Leia a matéria na íntegra na edição 139 da Revista Continente.



“Ainda não temos uma literatura policial brasileira”



Escrito por Luís Henrique Pellanda   


O escritor carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza elabora seus enigmas do mesmo modo que seu personagem, o delegado Espinosa, busca decifrá-los: deixando-se levar por trilhas que desconhece. O método é anárquico, e o caminho, repleto de desvios e bifurcações, quase imprevisível. Garcia-Roza admite que essa não é a maneira mais prudente de se escrever uma novela policial, e muito menos a mais “exitosa”. Mas o próprio Espinosa está preparado para isso — o perigo de fracassar —, e nem sempre é completamente bem-sucedido em suas investigações. Ao fim dos trabalhos, resta sempre uma ou outra sombra de dúvida. Como poderia, afinal, um policial ético como ele estar certo a respeito de tudo?

Em Fantasma — nono livro protagonizado pelo delegado Espinosa, da 12ª DP, de Copacabana —, um homem não identificado, possivelmente estrangeiro, aparece esfaqueado e morto numa grande avenida do bairro. Tudo indica que ele foi vítima de um latrocínio comum, e as únicas testemunhas do crime — quem sabe, os assassinos do desconhecido — são os sem-teto da região. Entre eles, a educada e misteriosa Princesa é a que mais interessa a Espinosa: ela parece saber o que houve na madrugada do assassinato. O problema, porém, é o que Princesa não sabe distinguir seus sonhos da realidade que a cerca. Assim, suas versões para o ocorrido são bastante conflitantes e voláteis, o que não impede Espinosa de, em parte, basear-se nelas para buscar alguma verdade.

Para Luiz Alfredo Garcia-Roza, aliás, a própria mentira seria “um dos caminhos” dessa verdade. E é a respeito disso que ele fala nessa breve entrevista sobre o universo das novelas policiais.

Apesar do gosto do público brasileiro pelas histórias de crime e mistério em geral, dos quase 30 anos que nos separam da ditadura militar e do grande sucesso de Rubem Fonseca, o Brasil ainda não desenvolveu uma tradição nesse gênero. Como anda essa literatura entre nós? Ainda estamos longe de fundar o nosso “clube do crime”?
Apesar dos autores surgidos a partir da virada do século, acho que ainda não temos produção suficiente para caracterizar uma literatura policial brasileira. Temos autores brasileiros de novela policial, não uma literatura policial brasileira. Mas creio que é uma questão de tempo.

Borges dizia que o romance realista estava destruindo a narrativa ficcional clássica, e por isso afirmava apreciar imensamente os livros policiais. Numa palestra de 1978, ele decretou: “Nesta época, que é tão caótica, há algo que, a seu modo modesto, manteve as virtudes clássicas: o conto policial. Pois um conto policial não pode ser compreendido sem um começo, um meio e um fim”. Você concorda? Isso ainda é válido?
Apesar das mudanças sofridas, o conto policial ainda segue o caminho sugerido por Poe: um enigma a ser decifrado, um método de decifração e o decifrador/detetive. Se eliminarmos um desses componentes, quebramos a estrutura básica da mistery novel.

Orhan Pamuk escreveu: “Como não nos exaurimos com o esforço constante de formular perguntas básicas sobre o sentido da vida, sentimo-nos confortáveis e seguros lendo romances de gênero. (...) Na verdade, lemos esses romances para sentir a paz e a segurança de estarmos em casa”. A partir dessa declaração do Nobel turco, duas perguntas. A primeira: o romance policial não deve ser também perturbador? E a segunda: por que ler romances policiais?
Não vejo o romance policial como apaziguador do pensamento ou aspirina da alma, mas como uma prática da suspeita. Seu ponto de partida é um enigma a ser decifrado ou um problema a ser resolvido, portanto, algo que move o leitor, que o deixa inquieto, e não que o faça dormir. O romance policial arranca o leitor da pasmaceira da contemplação imobilizadora e o lança numa busca que muitas vezes não tem um final feliz e tranquilizador. A analogia que se pode fazer é com a filosofia e a psicanálise; não quanto ao conteúdo, mas quanto a serem, as três, práticas da suspeita.

Espinosa investiga crimes a partir de um método próximo ao psicanalítico: faz associações mais ou menos livres, deixa que certas fantasias dominem os fatos e trabalha com o imaginário, o seu próprio e o do outro — criminosos, vítimas, testemunhas etc. Você escreve de maneira parecida? Como você cria os casos de seus romances?
Meu modo de escrever é um tanto anárquico. O mais comum é eu começar de um fato isolado, desimportante, mundano, e construir um caminho cujo fim eu desconheço e cujos desvios e bifurcações vão se fazendo ao sabor (ou dissabor) da própria narrativa. Não é a maneira mais prudente nem mais fácil de escrever, nem necessariamente a mais exitosa.

Em Fantasma, uma das personagens centrais da trama, Princesa, não vê diferença clara entre sonho e fantasia, imaginação e fato, realidade e ficção, e chega a dizer que “todo sonho meu é verdade”. Espinosa, apesar de se irritar com essa postura, jamais descarta totalmente a possibilidade de Princesa estar falando alguma verdade. Os sonhos não mentem?
Mentem. Exatamente por isso ocultam a verdade. A mentira é um dos caminhos da verdade.

Você já disse que não escreve sobre a nossa polícia, mas “apesar” da nossa polícia. A ética de Espinosa é sempre lembrada pelos leitores, e a consideração especial do seu delegado pelos sem-teto e os mendigos, por exemplo, também é recorrente em seus livros. Esse traço do caráter de Espinosa surgiu propositalmente? É o que mais o define como ser ético? O que a relação entre o delegado e os moradores de rua representa para você?
Não se trata apenas da relação entre Espinosa e os moradores de rua, mas da relação entre Espinosa e o outro. A ética do delegado Espinosa mantém uma respeitosa proximidade com a ética do seu homônimo do século 17, Baruch Spinoza. Assim como Baruch, Espinosa é um homem comum, nada tem a ver com a figura do herói. É a singularidade do delegado que o torna extraordinário aos nossos olhos.

Em Fantasma, tudo é fugidio e — claro — fantasmagórico: vítimas, suspeitos, testemunhas. A hipótese de uma mala desaparecida, um motivo real para os crimes, parece ser o que mantém Espinosa preso à concretude dos fatos. Assim, fantasiar sobre a existência de algo real em meio a fantasmas aparentes acaba sendo a única maneira de se chegar a uma possível decifração do enigma. Essa seria uma interpretação pertinente?
Eu substituiria a palavra “fantasmagórico” por “fantasmático”. Fantasma se passa na zona limítrofe entre fantasia e realidade. A própria mala, referência central de toda a história, parece fazer parte dos “objetos não-existentes” do começo da narrativa. A realidade se apresenta o tempo todo como um enigma, e Espinosa é seu decifrador.

Lembro de uma frase sua, marcante: “A beleza é quase uma doença do Rio”. Sendo assim, qual a importância, o papel da beleza em seus livros?
Papel central, embora nem sempre visível.

Espinosa é um personagem andarilho, observador. Para usar a expressão de João do Rio, é um conhecedor da alma das ruas. É claro que, ao invés de retratar qualquer aspecto social do crime no Brasil ou no Rio de Janeiro, seus livros parecem vasculhar a “alma” de um criminoso universal. Mesmo assim, podemos imaginar que o crime carioca possua uma alma particular?
O que eu sugiro nos meus livros é que o “criminoso universal” não existe. O criminoso é sempre um indivíduo singular, e o mesmo podemos dizer de sua “alma”. A “alma” do criminoso é como a “alma” do soul ou do jazz, expressa-se sempre como singularidade. O criminoso universal seria uma espécie de modelo platônico do mal, teria de ser escrito com maiúsculas. Como Baruch Spinoza, nosso Espinosa não acredita na existência do Bem e do Mal, mas do bom e do mau.

Já lhe perguntaram se você pensa em escrever novelas ou romances que não sejam policiais. Mas você já pensou em ser cronista?
Não. João do Rio e Rubem Braga já preencheram as vagas disponíveis. Me faltam o olhar poético e a capacidade que eles tinham de descrever o mundano na sua infinita multiplicidade.

Liberdade às bibliotecas virtuais


Escrito por Ricardo Lísias   
Ilustração por Janio Santos

Sou a favor dosdireitos autorais. Toda vez que houver uso comercial de um texto meu, quero receber por isso. Da mesma forma, sempre que um evento público contar com patrocinadores, os convidados precisam ser pagos pelo seu trabalho. Escrevo todos os dias, normalmente pela manhã, e procuro participar de uma quantidade reduzida de eventos e debates. Meu projeto literário exige algum tempo de pesquisa e revisões contínuas de um mesmo texto até atingir o ponto que me pareça satisfatório. Nunca escrevi um best-sellere é provável que meus livros sempre tenham uma quantidade limitada de leitores. Por isso, tiro meus rendimentos sobretudo como professor de língua portuguesa e inglesa em uma faculdade e de aulas particulares de português para estrangeiros.

Mas não foi por esperar pouco ou nenhum dinheiro com a literatura que me irritei com a retirada do ar, via medida jurídica, do site livrosdehumanas.org. Mantido por um grupo de alunos da Universidade de São Paulo, o espaço virtual disponibilizava arquivos PDF, quase sempre integrais, de muitas obras utilizadas nas faculdades de ciências humanas e também vários textos literários. O site era indexado, muito bem organizado e recebia milhares de acessos diários. Não tinha nenhum fim lucrativo e trabalhava de maneira colaborativa: o PDF era enviado para os administradores, que o revisavam e logo colocavam no ar.

A ação contra o site evidencia que mesmo uma parcela dos “profissionais do livro” não tem a menor ideia do meio através do qual retira seu lucro. É verdade que a difusão de arquivos eletrônicos dizimou a indústria fonográfica. No entanto, os objetos são muito diferentes. Dando um pouco de sorte é possível encantar-se com a música que o vizinho está ouvindo, sem saber como ele a reproduz. Vá alguém tentar ler Noturno do Chileesticando o pescoço para aproveitar o livro do cara sentado ao lado no ônibus...

Um arquivo PDF não é um livro. Quem baixa textos na internet muito provavelmente vai comprá-los depois. O site livrosdehumanas.orgfuncionava em parte como publicidade. As livrarias das maiores cidades do Brasil dispõem de um café onde o cliente pode examinar o que pretende adquirir. Mas a maior parte das cidades brasileiras, apesar de sempre ter o velho e bom café de bule, não conta com livrarias. Seus moradores compram livros pela internet. Assim, o arquivo serve como demonstração.

O site também tinha colocado limites na cultura do xerox, ainda reinante nas universidades. Em vez de um capítulo, os alunos podiam ter acesso a todo um livro. Vou contar uma experiência pessoal para ilustrar meu argumento. Certa vez, fui convidado por um grupo de cinco estudantes universitários que estavam fazendo uma monografia de final de curso sobre meu livro de contos (Anna O. e outras novelas). Quando os conheci, três estavam com o livro e dois carregavam xerox. Obviamente, não falei nada. Seis meses depois, no lançamento de um romance (O livro dos mandarins), os dois alunos que tinham uma cópia trouxeram agora o livro na noite de autógrafos. Provavelmente, na ocasião do primeiro encontro, não tinham dinheiro para adquirir meu livro. Com a difusão do ensino superior, ainda, o site cumpria a função de oferecer educação, um direito certamente acima dos que a ação cita.

Por fim, vale um lembrete: os direitos autorais são importantes para um autor, mas garanto que fundamental mesmo é saber que um leitor não deixará de conhecer nossos textos porque não têm dinheiro. Não podemos deixar que a miséria brasileira se alastre ainda mais pelas nossas Letras. O site livrosdehumanas.orgera uma biblioteca. A Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, que até propor essa ação judicial era desconhecida, pode até estar atenta ao lucro dos donos de máquinas copiadoras, mas colabora para a diminuição da inteligência brasileira. Quem é inimigo de uma biblioteca é companheiro da burrice. É preciso combater esse tipo de gente: primeiro impedem as pessoas de ler, logo vão nos dizer como temos que pensar, a maneira de agir e para onde devem se voltar nossos sentimentos. Eu prefiro a liberdade da tecla enter.

FONTE:
http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/teste/21-artigo/660-liberdade-as-bibliotecas-virtuais.html

Inscrições para o III Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil


Escrito por Revista Continente   


alt

A Companhia Editora de Pernambuco –Cepe abre inscrições para o III Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil, ao qual poderão concorrer brasileiros e estrangeiros legalizados, residentes no território nacional, de qualquer idade. Os textos da modalidade Infantil são destinados a leitores de seis a 10 anos de idade e os da modalidade Juvenil são para adolescentes entre 11 e 16 anos. Os interessados poderão se inscrever nas duas modalidades de premiação. Os prêmios serão de R$ 8 mil para o primeiro colocado de cada categoria; R$ 5 mil para o segundo e R$ 3 mil para o terceiro. A comissão julgadora será composta de cinco membros, entre especialistas em literatura infantojuvenil e profissionais das áreas de educação e cultura. O regulamento está disponível no site da editora (http://www.cepe.com.br/index.php/sobre-a-cepe/regulamentos)

REGULAMENTO:

1. A participação está aberta a todos os brasileiros natos e naturalizados, residentes no território nacional. Funcionários da Cepe e seus parentes em primeiro grau não poderão participar.

2. Haverá duas categorias de inscrição:
- Infantil (os textos apresentados devem se destinar ao leitor entre 6 e 10 anos);
- Juvenil (os textos apresentados devem se destinar ao leitor entre 11 e 16 anos).

3. Cada participante poderá concorrer nas duas categorias, sem limite para o número de obras inscritas.

4. As inscrições estarão abertas de 01/06/2012 a 30/08/2012, sendo considerada a data de postagem das obras nos Correios.

5. Os textos deverão ser endereçados à Companhia Editora de Pernambuco – Cepe, Rua Coelho Leite, 530, Santo Amaro – Recife – PE – CEP: 50100-140.

6. Os textos deverão ser inéditos e escritos em língua portuguesa. Entende-se por inédito o texto não editado e não publicado (parcialmente ou em sua totalidade) em antologias, coletâneas, suplementos literários, jornais, revistas, sites e qualquer outra publicação.

7. Os interessados podem inscrever obras em qualquer gênero (teatro, poesia, contos, romance etc), com tema e quantidade de páginas livres.

8. A identificação do candidato deverá ser feita por meio de pseudônimo, que deverá constar em todas as cópias da obra inscrita. Paralelamente, em envelope lacrado e identificado com o pseudônimo, o participante deverá apresentar seus dados pessoais (nome completo, endereço, telefone, e-mail, número de RG e CPF, profissão).

9. O candidato deverá enviar cinco cópias de cada obra, obedecendo à seguinte formatação: Fonte Times New Roman, corpo 12, espaçamento duplo, páginas numeradas e impressas, em papel carta ou A4, grampeadas ou encadernadas.

10. Poderão ser inscritas obras com ilustrações já inseridas, porém apenas o texto será julgado. Havendo publicação da obra, a diretoria da Cepe poderá optar por ilustrá-la segundo critérios próprios de editoração.

11. Os originais em desacordo com essas normas serão desclassificados.

12. A comissão julgadora, composta de cinco membros, será nomeada pela diretoria da Cepe, sendo formada por especialistas em literatura infantojuvenil e profissionais das áreas de educação e cultura. A composição da comissão julgadora será mantida em segredo até a nomeação dos vencedores do concurso.

13. A decisão da comissão é irrevogável. O anúncio do resultado será publicado no Diário Oficial do Estado de Pernambuco, no portal da Cepe e em veículos midiáticos.

14. O primeiro colocado de cada categoria receberá um prêmio de R$ 8.000,00 (oito mil reais); o segundo colocado, R$ 5.000,00 (cinco mil reais) e o terceiro, R$ 3.000,00 (três mil reais).

15. A Companhia Editora de Pernambuco – Cepe terá exclusividade na edição das obras vencedoras. Poderá, também, manifestar interesse pela edição de trabalhos não premiados no concurso, recomendados pela comissão julgadora. Assim, durante o prazo de 10 meses, a contar da data de divulgação dos resultados do concurso, poderá haver contato com os autores de obras recomendadas pela comissão julgadora, visando adquirir os direitos de publicação.

16. A Companhia Editora de Pernambuco – Cepe poderá decidir pela não publicação das obras premiadas. Neste caso, os vencedores serão comunicados oficialmente pela Cepe da decisão, ficando desobrigados da cláusula de exclusividade de edição.

17. Os textos e demais documentos entregues à Cepe não serão devolvidos.

18. A apresentação de obras para participar do III Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil implica no total acordo às normas aqui expressas.

fonte:
http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/48-literatura/7311-iii-concurso-cepe-de-literatura-infantil-e-juvenil.html

Os clássicos que eles não leram


Escrito por André Valença   
 
 alt

Você acordou, esfregou os olhos, levantou o pescoço e focou o mundo. Na diametral do quarto, resistindo ser esmagado pelos outros livros na prateleira, jaz Ulysses, clássico da literatura do irlandês James Joyce. Com a força hercúlea de 18 capítulos (1112 páginas na nova tradução de Caetano Galindo pela Penguin-Companhia), pontuado por neologismos, incontáveis referências culturais e narração inventiva, ele lhe lança um olhar repreensivo. Você o mira de volta, todo culpa. É seu mais temeroso inimigo, e você o deseja ao seu lado. Não se atormente, caro leitor. Você é tão caro aqui quanto é para Joyce. Esse problema que o aflige, de estar em falta com o que considera essencial como literatura, atinge, como você verá, até os mais diligentes leitores.

Não o li por completo – admito; este repórter admite –, mas sei que em Como falar sobre livros que não leu (título um tanto canalha, quase se confundindo com autoajuda), o professor francês Pierre Bayard, da Universidade Paris 8, afirma que ler um livro da primeira à última linha é apenas uma das mil formas de apreender uma obra e que a exigência de conhecer cada palavra dos clássicos nos impinge desnecessária culpa. Bayard ainda insiste em fazer um pedido: que seus colegas acadêmicos parem de referenciar livros que evidentemente não leram em notas de rodapé. Concordando ou não com as polêmicas afirmações do francês, a Continente Online decidiu procurar alguns escritores, jornalistas, críticos e professores dispostos a responder a pergunta: “Qual clássico da Literatura você não leu?”. No entanto, para descobrir as respostas, você terá que ler.

“Quanto mais leio, mais largo”, confessa Ronaldo Bressane, escritor, jornalista, editor e praticante de uma leitura em zapping, como se define. “Eu leio muitos livros ao mesmo tempo, vou deixando as narrativas em suspensão por meses e, às vezes, anos”. Por isso é fã de contos, sobrepondo no criado-mudo dúzias de livros do gênero narrativo, que abre aleatoriamente para embarcar no universo de um determinado escritor que admira.

“Eu não consigo imaginar como é que se lê um romance em pedaços”, comenta numa outra direção Anco Márcio Tenório Vieira, professor do departamento de Letras da UFPE. “Esta tese pode muito bem se aplicar aos livros de contos e aos de poemas, mas não às narrativas de romance”.

Sobre suas leituras pendentes, Bressane recorda que até os 25 anos tinha pleno domínio da própria biblioteca, mas reconhece que este controle ficou no passado: “agora ela parece um monumento à minha falta de tempo, ao meu excesso de distração e de interesses”. Além de Mahabharata, de Pópol Vule do Livro tibetano dos mortos, uma obra que Bressane não leu e considera importante é o Ulysses, do Joyce, base de praticamente toda a literatura do século 20 pra cá. “Tenho a impressão de que quando, afinal, passar da página cem – e creio que vai ser nesta excelente tradução do Caetano Galindo, que me pegou – , vou lê-lo como quem começou a ouvir rock a partir do punk, mas nunca escutou Beatles: como quem re-encontra pessoas que você conhecia, mas, ao mesmo tempo, jamais tinha visto”.

Se Ulysses é o grande muro a ser saltado por Bressane, quem sabe Galindo, que mais do que ultrapassou esta barreira, traduzindo a obra, já não está satisfeito com sua cota de clássicos lidos? Há algum que não leu? “Uai, pilhas! Mas o [Em busca do tempo perdido, de] Proust está no alto da pilha da vergonha”, confessa o tradutor.

Já é noite. Você deita mais uma vez na cama. Olha as horas e lá se vão tantas. “O tempo perdido é este que que eu passo no ócio”, pensa, enquanto ironicamente os seis volumes do Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, lhe olham com desprezo. Você vira o rosto, ao invés de olhar para frente e admitir sua limitações.

Em Bonsai (esse eu li todo, mas é bem curtinho), novela do chileno Alejandro Zambra recém-lançada pela Cosac Naify no Brasil, “a primeira mentira que Julio contou a Emilia foi que tinha lido Proust” e “naquela mesma noite, Emilia mentiu para Julio, e a mentira foi a mesma, que tinha lido Marcel Proust”. Os dois personagens prosseguem comentando o livro e até se convencem que têm que acessá-lo novamente, pois é uma daquelas obras que mesmo depois de lidas a gente considera pendentes. Não é um cenário incomum, e apesar de muitos dos entrevistados já terem passado por situação parecida, eles foram unânimes na opinião de que não há sentido em ocultar suas lacunas literárias.

alt

“Faz bem confessar nossa ignorância, até porque uma única vida não seria bastante para ler tantos livros”, reflete Ronaldo Correia de Brito, dramaturgo, contista, romancista e que ainda não leu A divina comédia, de Dante Alighieri. Antônio Xerxenesky, escritor gaúcho encalhado no primeiro volume de Proust, hoje em dia não tem mais vergonha em admitir falhas no currículo, mas relembra que, em rodas de amigos, quando ainda se importava em parecer “moderadamente intelectual”, fingiu leituras. “Um que eu lembro foi O grande Gatsby”, confessa, que, no final das contas, acabou lendo e adorando. “É muito rico, além de confortador, expor nossos limites”, acredita o escritor e crítico literário José Castello que também sempre desejou ler “o livrão do Proust” e tem um projeto pessoal de passar uns dias numa praia ou montanha só para devorar a versão integral de Dom Quixote, do qual só acessou trechos soltos e versões adaptadas. “Mas é claro que as pessoas blefam. Eu mesmo já fiz isso no passado, quando era jovem e mais inseguro. Hoje me vigio ao máximo, tento expor do modo mais claro que posso as minhas deficiências e as minhas fraquezas, que são muitas”, completa.
 
“Quando eu desconheço a obra eu digo que desconheço, sem nenhum problema”, comenta Anco, que pretende voltar à sua leitura inacabada d'A Morte de Virgílio, de Hermann Broch. “Na verdade, eu gostaria de mentir sobre algumas obras que eu li, não sobre as que eu deixei de ler. Alguns livros são tão ruins que eu termino tendo vergonha do autor”. Já Castello afirma: “existem muito mais coisas importantes que não li do que coisas importantes que li. É muito frustrante admitir, mas é isso”.
 
Sem remorsos de não sentir “adorações” pelo Dom Casmurro, de Machado de Assis, o escritor e jornalista Samarone Lima, leitor “caótico e muito sem direcionamento”, é mais da linha de Bressane. “Literatura é libertária. Se eu não tô gostando, não tá me convencendo, eu vou procurar outro autor que me faça feliz”.
 
Na madrugada você sonha. Com moinhos de vento nunca lidos.
 
É possível ter uma conversa realmente profunda com outra pessoa sobre uma obra que não leu? O enredo de Dom Quixote, por exemplo, apesar de lermos apenas trechos, ou só ouvirmos falar, sabemos se tratar da demanda do autoproclamado cavaleiro para salvar sua amada Dulcineia. E não raramente nos pegamos em discussões filosóficas citando os imbatíveis moinhos de vento, gigantes que nunca venceremos. “E isso faz parte dessa definição de 'clássico', né? De um livro que é importante e conhecido até pra quem não leu”, Galindo põe em questão. “Muita coisa eu sei que é importante para minha formação e informação, mas, por excesso de leituras contextuais e intertextuais, eu tenho até a impressão de já ter lido aquilo”, expõe Bressane.

“Acho que só podemos falar com alguma propriedade de um livro se o lemos até o final. Já escrevi dezenas de resenhas e orelhas não assinadas, e sempre li até o final, por mais torturante e chato que fosse o livro”, pontua Xerxenesky, adicionando que “claro, às vezes lendo apenas um trecho podemos entender qual é a sua proposta estética e descartarmos sua leitura ainda no início”. “Paul Valéry dizia isso, que largava os livros pelo meio quando achava que já tinha entendido sua estratégia”, comenta José Castello, e acrescenta: “isso é possível no caso dos livros medianos ou banais, eu penso. Mas no caso dos grandes livros, acho sempre perigoso. Agora, a literatura não está na esfera do sagrado, mas do humano. Nada nos impede de ler o que é possível e de tirar alguma coisa boa disso. O importante é ler”.

alt

É o eterno dilema do leitor contemporâneo, que não tem tempo de ir atrás de tudo o que lhe interessa. Se se detém num livro que lhe exausta e lhe custa, pode estar perdendo a oportunidade de ler outra coisa que lhe agrade. Se não termina o texto, talvez nunca mais saiba se a obra como um todo lhe servia. “Tem autores que eu lamento de não ter lido antes”, diz Samarone, “Guimarães Rosa, o Grande Sertões: veredas, eu lembro que passei pela primeira página umas duas vezes e fiquei: 'porra, que negócio complicado'. Encontrei Sérgio Buarque e ele perguntou: 'você não leu ainda?'. Eu não dava muita bola, mas ele insistiu. Foi um dos negócios mais impactantes que eu já li na vida. A beleza, a dimensão dos personagens, a história. E depois eu agradeci a ele, porque seria uma pena se eu tivesse passado por essa vida e não tivesse lido”. Bressane também comenta uma experiência semelhante: “Recentemente terminei de ler O Mestre e Margarida, do Bulgákov. Eu tinha começado nos anos 90 e parei, por terem me furtado o livro, e agora pensei: imagine a tristeza de passar a vida sem ter podido terminar esse romance! As boas histórias sempre acabam se re-encontrando. Deve existir um céu só pra isso”.

Os entrevistados comentam os enredos dos clássicos que não leram:

Anco Márcio Tenório Vieira (A Morte de Virgílio): “O romance aborda as últimas horas da vida do poeta latino Virgílio. É, na verdade, quase que um longo monólogo interior, onde o poeta relembra sua vida e começa a entrelaçar, de maneira confusa, os fatos do presente com aqueles do passado, a realidade com o sonho”.

Antônio Xerxenesky (Em busca do tempo perdido): “Lemos tanto sobre Proust em outros lugares que qualquer leitor mais dedicado sabe mencionar o episódio da madeleine e sabe que o livro gira em torno da questão do tempo e das memórias. Ah, e que há tensão homoerótica na história. Até Ratatouille faz referência a Proust”

Caetano Galindo (Em busca do tempo perdido): “Resumir o enredo do Proust ia ser punk!”

José Castello (Em busca do tempo perdido): “Posso me arriscar a falar algumas coisas sobre essas obras, a partir do que li 'sobre' e também de trechos dispersos que consegui ler. Mas é sempre muito perigoso, e se posso escolher, prefiro não fazer isso. Muitas vezes, como repórter literário, fui obrigado a fazer por imposição do tempo industrial do jornalismo. Mas, quando fiz, fiz sempre a contragosto”.

Ronaldo Bressane (Ulysses): “Vagamente. Creio ser focado em um único dia da vida de dois maníacos chamados Leopoldo Bloom e Stephen Dedalus, suas aventuras de manhã até a noite do 16 de junho, quando Bloom volta pra casa e ouve sua mulher entrar em um transe verborrágico finalizado por vários sim, sim, sim. Acho que é uma descrição plausível sobre o livro, caso caísse no vestibular”.

Ronaldo Correia de Brito (A divina comédia): "Não se trata propriamente de descrever um enredo, mas referir as três partes do poema: Inferno, Purgatório e Paraíso. A Comédia foi escrita no século XIII, mas nunca deixou de causar interesse, seja histórico, moral, alegórico ou místico, mas, sobretudo, por ser um grande poema”.

Samarone Lima (Dom Casmurro): “Não é o cara que tem a esposa e tem aquela história que ficam na dúvida se ela traiu ou não? Mas ninguém sabe direito. Mas... para minha vida como leitor, não é uma coisa que não me faz falta. Heresia, pode ser. Mas eu sou completamente independente dessas obrigações”.

* Colaborou Gianni Paula de Melo

FONTE:
http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/48-literatura/7365-os-classicos-que-eles-nao-leram.html