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Você acordou, esfregou os olhos, levantou o pescoço e focou o
mundo. Na diametral do quarto, resistindo ser esmagado pelos outros
livros na prateleira, jaz Ulysses, clássico da literatura do
irlandês James Joyce. Com a força hercúlea de 18 capítulos (1112 páginas
na nova tradução de Caetano Galindo pela Penguin-Companhia), pontuado
por neologismos, incontáveis referências culturais e narração inventiva,
ele lhe lança um olhar repreensivo. Você o mira de volta, todo culpa. É
seu mais temeroso inimigo, e você o deseja ao seu lado. Não se
atormente, caro leitor. Você é tão caro aqui quanto é para Joyce. Esse
problema que o aflige, de estar em falta com o que considera essencial
como literatura, atinge, como você verá, até os mais diligentes
leitores.
Não o li por completo – admito; este repórter admite –, mas sei que em Como falar sobre livros que não leu (título
um tanto canalha, quase se confundindo com autoajuda), o professor
francês Pierre Bayard, da Universidade Paris 8, afirma que ler um livro
da primeira à última linha é apenas uma das mil formas de apreender uma
obra e que a exigência de conhecer cada palavra dos clássicos nos
impinge desnecessária culpa. Bayard ainda insiste em fazer um pedido:
que seus colegas acadêmicos parem de referenciar livros que
evidentemente não leram em notas de rodapé. Concordando ou não com as
polêmicas afirmações do francês, a Continente Online decidiu
procurar alguns escritores, jornalistas, críticos e professores
dispostos a responder a pergunta: “Qual clássico da Literatura você não leu?”. No entanto, para descobrir as respostas, você terá que ler.
“Quanto mais leio, mais largo”, confessa Ronaldo Bressane, escritor, jornalista, editor e praticante de uma leitura em zapping,
como se define. “Eu leio muitos livros ao mesmo tempo, vou deixando as
narrativas em suspensão por meses e, às vezes, anos”. Por isso é fã de
contos, sobrepondo no criado-mudo dúzias de livros do gênero narrativo,
que abre aleatoriamente para embarcar no universo de um determinado
escritor que admira.
“Eu não consigo imaginar como é que se lê um romance em pedaços”,
comenta numa outra direção Anco Márcio Tenório Vieira, professor do
departamento de Letras da UFPE. “Esta tese pode muito bem se aplicar aos
livros de contos e aos de poemas, mas não às narrativas de romance”.
Sobre suas leituras pendentes, Bressane recorda que até os 25 anos
tinha pleno domínio da própria biblioteca, mas reconhece que este
controle ficou no passado: “agora ela parece um monumento à minha falta
de tempo, ao meu excesso de distração e de interesses”. Além de Mahabharata, de Pópol Vule do Livro tibetano dos mortos, uma obra que Bressane não leu e considera importante é o Ulysses,
do Joyce, base de praticamente toda a literatura do século 20 pra cá.
“Tenho a impressão de que quando, afinal, passar da página cem – e creio
que vai ser nesta excelente tradução do Caetano Galindo, que me pegou –
, vou lê-lo como quem começou a ouvir rock a partir do punk, mas nunca escutou Beatles: como quem re-encontra pessoas que você conhecia, mas, ao mesmo tempo, jamais tinha visto”.
Se Ulysses é o grande muro a ser saltado por Bressane, quem
sabe Galindo, que mais do que ultrapassou esta barreira, traduzindo a
obra, já não está satisfeito com sua cota de clássicos lidos? Há algum
que não leu? “Uai, pilhas! Mas o [Em busca do tempo perdido, de] Proust está no alto da pilha da vergonha”, confessa o tradutor.
Já é noite. Você deita mais uma vez na cama. Olha as horas e lá se
vão tantas. “O tempo perdido é este que que eu passo no ócio”, pensa,
enquanto ironicamente os seis volumes do Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, lhe olham com desprezo. Você vira o rosto, ao invés de olhar para frente e admitir sua limitações.
Em Bonsai (esse eu li todo, mas é bem curtinho), novela do
chileno Alejandro Zambra recém-lançada pela Cosac Naify no Brasil, “a
primeira mentira que Julio contou a Emilia foi que tinha lido Proust” e
“naquela mesma noite, Emilia mentiu para Julio, e a mentira foi a mesma,
que tinha lido Marcel Proust”. Os dois personagens prosseguem
comentando o livro e até se convencem que têm que acessá-lo novamente,
pois é uma daquelas obras que mesmo depois de lidas a gente considera
pendentes. Não é um cenário incomum, e apesar de muitos dos
entrevistados já terem passado por situação parecida, eles foram
unânimes na opinião de que não há sentido em ocultar suas lacunas
literárias.
“Faz bem confessar nossa ignorância, até porque uma única vida não
seria bastante para ler tantos livros”, reflete Ronaldo Correia de
Brito, dramaturgo, contista, romancista e que ainda não leu A divina comédia,
de Dante Alighieri. Antônio Xerxenesky, escritor gaúcho encalhado no
primeiro volume de Proust, hoje em dia não tem mais vergonha em admitir
falhas no currículo, mas relembra que, em rodas de amigos, quando ainda
se importava em parecer “moderadamente intelectual”, fingiu leituras.
“Um que eu lembro foi O grande Gatsby”, confessa, que, no final
das contas, acabou lendo e adorando. “É muito rico, além de
confortador, expor nossos limites”, acredita o escritor e crítico
literário José Castello que também sempre desejou ler “o livrão do
Proust” e tem um projeto pessoal de passar uns dias numa praia ou
montanha só para devorar a versão integral de Dom Quixote, do qual só
acessou trechos soltos e versões adaptadas. “Mas é claro que as pessoas
blefam. Eu mesmo já fiz isso no passado, quando era jovem e mais
inseguro. Hoje me vigio ao máximo, tento expor do modo mais claro que
posso as minhas deficiências e as minhas fraquezas, que são muitas”,
completa.
“Quando eu desconheço a obra eu digo que desconheço, sem nenhum
problema”, comenta Anco, que pretende voltar à sua leitura inacabada d'A Morte de Virgílio,
de Hermann Broch. “Na verdade, eu gostaria de mentir sobre algumas
obras que eu li, não sobre as que eu deixei de ler. Alguns livros são
tão ruins que eu termino tendo vergonha do autor”. Já Castello afirma:
“existem muito mais coisas importantes que não li do que coisas
importantes que li. É muito frustrante admitir, mas é isso”.
Sem remorsos de não sentir “adorações” pelo Dom Casmurro, de Machado de
Assis, o escritor e jornalista Samarone Lima, leitor “caótico e muito
sem direcionamento”, é mais da linha de Bressane. “Literatura é
libertária. Se eu não tô gostando, não tá me convencendo, eu vou
procurar outro autor que me faça feliz”.
Na madrugada você sonha. Com moinhos de vento nunca lidos.
É possível ter uma conversa realmente profunda com outra pessoa sobre
uma obra que não leu? O enredo de Dom Quixote, por exemplo, apesar de
lermos apenas trechos, ou só ouvirmos falar, sabemos se tratar da
demanda do autoproclamado cavaleiro para salvar sua amada Dulcineia. E
não raramente nos pegamos em discussões filosóficas citando os
imbatíveis moinhos de vento, gigantes que nunca venceremos. “E isso faz
parte dessa definição de 'clássico', né? De um livro que é importante e
conhecido até pra quem não leu”, Galindo põe em questão. “Muita coisa eu
sei que é importante para minha formação e informação, mas, por excesso
de leituras contextuais e intertextuais, eu tenho até a impressão de já
ter lido aquilo”, expõe Bressane.
“Acho que só podemos falar com alguma propriedade de um livro se o
lemos até o final. Já escrevi dezenas de resenhas e orelhas não
assinadas, e sempre li até o final, por mais torturante e chato que
fosse o livro”, pontua Xerxenesky, adicionando que “claro, às vezes
lendo apenas um trecho podemos entender qual é a sua proposta estética e
descartarmos sua leitura ainda no início”. “Paul Valéry dizia isso, que
largava os livros pelo meio quando achava que já tinha entendido sua
estratégia”, comenta José Castello, e acrescenta: “isso é possível no
caso dos livros medianos ou banais, eu penso. Mas no caso dos grandes
livros, acho sempre perigoso. Agora, a literatura não está na esfera do
sagrado, mas do humano. Nada nos impede de ler o que é possível e de
tirar alguma coisa boa disso. O importante é ler”.
É o eterno dilema do leitor contemporâneo, que não tem tempo de ir
atrás de tudo o que lhe interessa. Se se detém num livro que lhe exausta
e lhe custa, pode estar perdendo a oportunidade de ler outra coisa que
lhe agrade. Se não termina o texto, talvez nunca mais saiba se a obra
como um todo lhe servia. “Tem autores que eu lamento de não ter lido
antes”, diz Samarone, “Guimarães Rosa, o Grande Sertões: veredas,
eu lembro que passei pela primeira página umas duas vezes e fiquei:
'porra, que negócio complicado'. Encontrei Sérgio Buarque e ele
perguntou: 'você não leu ainda?'. Eu não dava muita bola, mas ele
insistiu. Foi um dos negócios mais impactantes que eu já li na vida. A
beleza, a dimensão dos personagens, a história. E depois eu agradeci a
ele, porque seria uma pena se eu tivesse passado por essa vida e não
tivesse lido”. Bressane também comenta uma experiência semelhante:
“Recentemente terminei de ler O Mestre e Margarida, do
Bulgákov. Eu tinha começado nos anos 90 e parei, por terem me furtado o
livro, e agora pensei: imagine a tristeza de passar a vida sem ter
podido terminar esse romance! As boas histórias sempre acabam se
re-encontrando. Deve existir um céu só pra isso”.
Os entrevistados comentam os enredos dos clássicos que não leram:
Anco Márcio Tenório Vieira (A Morte de Virgílio): “O
romance aborda as últimas horas da vida do poeta latino Virgílio. É, na
verdade, quase que um longo monólogo interior, onde o poeta relembra
sua vida e começa a entrelaçar, de maneira confusa, os fatos do presente
com aqueles do passado, a realidade com o sonho”.
Antônio Xerxenesky (Em busca do tempo perdido):
“Lemos tanto sobre Proust em outros lugares que qualquer leitor mais
dedicado sabe mencionar o episódio da madeleine e sabe que o livro gira
em torno da questão do tempo e das memórias. Ah, e que há tensão
homoerótica na história. Até Ratatouille faz referência a Proust”
Caetano Galindo (Em busca do tempo perdido): “Resumir o enredo do Proust ia ser punk!”
José Castello (Em busca do tempo perdido): “Posso
me arriscar a falar algumas coisas sobre essas obras, a partir do que
li 'sobre' e também de trechos dispersos que consegui ler. Mas é sempre
muito perigoso, e se posso escolher, prefiro não fazer isso. Muitas
vezes, como repórter literário, fui obrigado a fazer por imposição do
tempo industrial do jornalismo. Mas, quando fiz, fiz sempre a
contragosto”.
Ronaldo Bressane (Ulysses): “Vagamente. Creio
ser focado em um único dia da vida de dois maníacos chamados Leopoldo
Bloom e Stephen Dedalus, suas aventuras de manhã até a noite do 16 de
junho, quando Bloom volta pra casa e ouve sua mulher entrar em um transe
verborrágico finalizado por vários sim, sim, sim. Acho que é uma
descrição plausível sobre o livro, caso caísse no vestibular”.
Ronaldo Correia de Brito (A divina comédia):
"Não se trata propriamente de descrever um enredo, mas referir as três
partes do poema: Inferno, Purgatório e Paraíso. A Comédia foi escrita no
século XIII, mas nunca deixou de causar interesse, seja histórico,
moral, alegórico ou místico, mas, sobretudo, por ser um grande poema”.
Samarone Lima (Dom Casmurro): “Não é o cara que tem a
esposa e tem aquela história que ficam na dúvida se ela traiu ou não?
Mas ninguém sabe direito. Mas... para minha vida como leitor, não é uma
coisa que não me faz falta. Heresia, pode ser. Mas eu sou completamente
independente dessas obrigações”.
* Colaborou Gianni Paula de Melo
FONTE:
http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/48-literatura/7365-os-classicos-que-eles-nao-leram.html |